quinta-feira, 6 de julho de 2017

Ela

Gostava conhecer o cheiro do teu cabelo.
Suas cores, seus humores.
Gostava saber o sabor da tua pele.
Seus altos, seus percalços.
Gostava te abraçar em mim, aqui, assim
Frente a frente, rente a rente.

Quando sentires,
Quando souberes,
Estarei aqui na beira da estrada,
À beira do nada 
E pronto atravessar.

domingo, 2 de abril de 2017

A Praia

Onde foi? Não me perguntem detalhes. Há pormenores que se vão perdendo com o passar do espaço. Sei que era madrugada. Bem cedo ou bem tarde, depende da maneira como se enche o copo. Se eram 5, 6, 7 horas? Já não me recordo. Sei que tinhamos de estar lá cedo. Era nossa obrigação desfrutar tudo. Nota máxima. 100% eficácia nas férias!

Assim ia a familiazinha à praia. O pai ao volante com a mãe ao lado e eu estofado entre sonos no banco traseiro. Sonhando com todas as novas e extraordinárias aventuras prestes a revelarem-se em mais um dia de férias na praia. As "Férias Grandes de Verão" ,esse período extraordinário de 2 meses e picos sem escolinha, em que cada dia é preenchido com acção galopante e fascínios vários.

Lembro-me de uma discussão feia. Já não sei se acordei com o barulho ou se estive desperto desde o início. É como vos digo, os detalhes esfumam-se. Recordo os gritos. Recordo o clamor de brados partilhados nos bancos da frente, como raquetadas de amargura num concurso de ódio.

E foi assim que as acusações se amontoaram debaixo dos bancos; as desconfianças cresceram até baterem no tejadilho e o porta-bagagens ficou lotado de rancor e toalhas de praia. Já não cabia mais nada naquele carro em excesso de carga e era claro que alguma coisa tinha de sair... e saíu.

Saíu o pai quando com uma violenta guinada à esquerda, cavalgou o Opel Corsa em contramão estrada fora, pedal a fundo até...

Aqui a memória começa a falhar a sério.

5 segundos? 10 segundos? 1 minuto?! Uma semana?!
Se recordo gritos? É provável. Se lembro os faróis de um camião como 2 sóis ardentes na face? Talvez. Terror? Sim, definitivamente.

Não me lembro do resto. Não me lembro do fim.

Hoje, quando me perguntam porque não gosto de praia, digo que a areia me faz comichão.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Os Restos

Havia um gato.
Que fingia cão.
E tanto cão fingiu.
Que gato esqueceu.
E quando quis gato
Nem carne, nem peixe
Sobejaram só os restos,
No fundo do prato.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Amanhã

Acorda, levanta.
Põe a máscara, encanta.
Liga as luzes, liga a TV.
Mostra e conta do A ao B.
E como é bonito, e como é belo
Aterrar no chão sem chinelo.

Pausa, intervalo, almoço.
Cerra a cortina, roi o osso.
Volta ao palco. Sorri, conta histórias.
Ignora a fome das vitórias.
E como é bonito, e como é belo
Fazer a barba com cutelo.

Volta a casa, só num passo.
Segue as regras a compasso.
Vai na linha, assobia.
Sente o fel da maresia.
E já é hora de baralhar.
Apanhar jogo, voltar a dar.
Já é hora de baralhar.
Dormir; talvez não acordar.

sábado, 9 de julho de 2016

Voz

Olha para a tua esquerda. Olha para a tua direita. O que vês? Pessoas. Pessoas que sabem. Pessoas que sabem o quê? Pessoas que sabem o que fazem. Sabem para onde querem ir e para onde vão. Sabem estar, sabem ser... humanas. Não vês lixo, lixo de gente. Não vês dejectos bípedes pois não?
O que é que tu fizeste para estar aqui? Volta para o chão que te pariu, anormal.
O quê que estás aqui ainda a fazer?! Olha para eles. OLHA PARA ELES, SEU ANIMALZINHO NOJENTO! Eles estão aqui porque merecem estar aqui. Ninguém te quer aqui. Vai-te embora, cão. Rodapé da humanidade. O teu lugar não é aqui, com as pessoas. O teu lugar é com as doenças dos ratos; para ver se te despachas.
Vai!
Livra-nos!

quinta-feira, 7 de julho de 2016

A Pastilha

A cabeça conta histórias.
Histórias de embalar.
O corpo escuta as histórias
Até acreditar.
E quando a noite chega
E quando a vontade falha,
O corpo só quer dormir
Enquanto a cabeça ralha.
Já fui por aí.
Sou sol nado e sol posto.
Já passei o que não vivi.
Já vivi a contragosto.

Engole a pastilha.
Engole a pastilha.
Engole a pastilha.
Engole a pastilha.

A cabeça sabe o que faz.
Sabe o corpo com a certeza
De quem já não olha para trás
De quem esconde debaixo da mesa.
E cala a voz,
Deixa-te dormir.
Há lugares bons a visitar.
E cala a voz,
Deixa-te ir.
Há um lugar à beira-mar.

Engole a pastilha.
Engole a pastilha.
Engole a pastilha.
Engole a pastilha.

sábado, 9 de abril de 2016

A Esplanada

Sexta-feira ao fim do dia, João e José amigos de longa data encontravam-se numa esplanada beira-rio. Todas as sextas feiras, já nem era necessário combinar. João saía às 18H00 e ia logo sentar-se de fronte para o rio enquanto José que sairía daqui por uma hora, não aparecia. Eram bedidas cervejas enquanto amigos conversavam sobre tudo, nada e a semana passada. Ambos usavam este tempo para relaxar e limpar da cabeça os dias perdidos. Foi num destes fins de tarde, interrompendo um período de silêncio e contemplação que, sem avisar, João notou:

- Fodasse! É estranho não é?
- O quê? -interrompeu José
- Aquela sensação parva que dá de repente. Que estavas melhor noutro lugar.
- Sozinho numa ilha paradisíaca com duas boazonas! Hehe! Aí é que eu queria estar!
- Não pá! Noutro lugar, caralho! Não aqui! Noutro lado qualquer, fora daqui.
- Hãn?!
- Sim, pá! Não te apetece às vezes não estar cá? Desaparecer. Dizer: "Epá isto foi bom; foi muito giro estar cá e tal mas agora vou embora. Xau Maria, xau maltinha. Dou por concluida a minha presença. Fui."
- Emigrares?
- Sim... ... ... da vida.
- ...
- Epá! O estranho é quando esta ideia te vem à cabeça nas alturas mais improváveis... Olha, nem vás mais longe: no outro dia, no aniversário do Luís. Estavamos lá todos satisfeitos a jantar, a recordar histórias, a rir... Lembras-te?
- Sim.
- De repente dou comigo a pensar em como é que me posso ir embora; sabes? e o mais assustador é que não sei quanto tempo é que estive ausente a planear isso.
- ...
- Estavamos ali todos. O grupo reunido: mulheres, namoradas, filhos de uns e de outros. Tudo satisfeito. E deu-me para olhar em redor e pôr-me a pensar que pronto, já chegava para mim e agora aqui como é que posso acabar?
- ...
- É parvo pensar num coisa dessas num sítio assim. É estranho.
- ...
- ...

João e José continuaram a encontrar-se todas as sextas-feiras às mesmas horas naquela esplanada. Esta conversa nunca mais se repetiu e nenhum deles voltou a abordar o assunto.