segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Poço

"Era tão novo!"

Tinha feito 11anos ainda agora. A festa do seu aniversário fora preenchida e agitada, estavam lá todos os seus amigos da escola, os vizinhos e os seus familiares. Brincou livremente, riu-se em barda e comeu guloseimas até fartar. Estava a ser a festa de aniversário com que qualquer criança sonha. A páginas tantas, a meio de mais um jogo de escondidas, escondeu-se atrás do poço que existia ao fundo do terreno, bem perto da ribeira . Ainda ninguém se tinha lembrado daquele esconderijo que, a seu ver, parecia perfeito para o efeito. Agachou-se atrás do muro empedrado e aguardou pelo momento ideal para escapar rumo à vitória. Porém, apesar das várias oportunidades de que dispôs para ganhar a partida, foi-se deixando ficar. Estava reluctante em sair daquele poiso e tentou ali permanecer o máximo de tempo, antes de ser inevitavelmente apanhado.

Nas semanas que se seguiram deu por si várias vezes fazendo desvios do seu trajecto escola-casa para junto daquele poço. Sentia-se ali tão bem, beira-poço. Parecia que o poço o chamava e o atraia quase misticamente. Permanecia ali tardes inteiras a admirá-lo e a perscutá-lo, a olhar para o seu interior e imaginar o que o estaria a chamar das pronfundezas. O que vivia para além de toda aquela escuridão? O que seria que o parecia aliciar? Não sabia responder, apenas sentia que o poço o desejava, tanto como ele desejava o poço.

Foi para ali durante alguns meses, tendo inclusivamente lá levado alguns dos seus amigos para tentar perceber discretamente se o poço tinha o mesmo efeito sobre eles mas ninguém parecia reagir aos encantos do poço. "Nem um sinal; nada. Serão eles imunes? Como é que não sentem? Olhem lá para baixo! É lindo!" -pensava incrédulo perante a aparente indiferença de todos os outros.

Tinha muita curiosidade em seguir o desejo e ir explorar o fundo mas nunca tinha junto a coragem. Já se tinha debruçado várias vezes para tentar perscrutar ou vislumbrar algum sinal do além-poço mas tinha sempre receio de avançar: "apesar de tudo não passa de um poço comum, e os poços não falam, nem chamam pessoas! ... ... ... mas é tão real..."

Um dia, tinha já 14anos desistiu de resistir e cedeu àquela ânsia e, num misto de nervosismo e excitação, decidiu descer. Lembrou-se de levar uma lanterna e uma corda, mas optou por não o fazer, já que o que quer que lá estivesse em baixo havia de guiá-lo, tal qual tinha feito até então.

E assim foi, nesse mesmo dia. Descalçou-se, abeirou-se do poço e desceu escalando para as aliciantes profundezas.

O seu cadáver foi encontrado 9dias depois. A autópsia declarou morte por afogamento.

Ele não gritou.

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