Da sua infância de pouco se lembra. Lembra-se, a espaços da caixa e do que se lembra é da caixa.
Vivera ali toda a sua vida.
A caixa era branca. O chão era branco, o tecto era branco. As paredes eram... bem; as paredes ele nunca as tinha efectivamente visto; ficavam demasiado longe. Ele andava e andava e andava mas nunca chegava lá, estavam sempre no horizonte... brancas.
Nasceu ali e cresceu ali, sempre naquela caixa branca. Ali, onde o sol não nascia ou sequer punha, era só branco, dia após dia, o que quer que isso significasse. Ele aborrecia-se? Sim. Não. Talvez. Branco. Não conhecia tempo ou vida, espaço ou morte, pelo que se limitava a estar. Onde? Na Caixa. Quando? Na Caixa. Quanto? Na Caixa. Como? Na Caixa? Porquê? Na caix... porquê é que ele não sabia. Estava lá e tinha consciência que lá estava. Mas porquê?
Às vezes sonhava com outra coisa, um mundo fora da caixa. Aliás, -«um mundo em que havia como que outras caixas com gente lá dentro... mas estavam todas juntas... e não era bem várias caixas era só uma caixa grande, de todos... mas não era bem uma caixa porque não tinha limites, havia sempre mais uma caixa para além dessa... como um complexo de caixas infinito...» Não o sabia explicar muito bem, mas afinal o seu universo resumia-se a um espaço branco nu.
Nesses devaneios via-a se a viver noutro sítio, com cores, com cheiros, com outros como ele, e ainda outros nem tanto assim, vidas, sabores, acção, sentido, estímulos, emoções. Conceitos alienígenas que ele apenas podia imaginar, mas que lhe pareciam, à altura, simplesmente deliciosos. Forçava-se a entorpecer, adormecer e sonhar para chegar lá. Àquilo a que ele chamava Nirvana, à vida para além da caixa, daquela caixa, da sua caixa, dele.
Um dia adormeceu e quando acordou estava do lado de fora da caixa.
Passaram-se décadas; ainda hoje quer voltar.
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