quarta-feira, 7 de maio de 2025

Ruído

Ouvem isto? Ouvem as vozes que duvidam?

Como sussurram ao ouvido:

"Vales pouco. Vales nada."

Ouvem isto? Ouvem as vozes do passado?

Como gritam de noite, dia:

"Vales 0. Acabado."

Ouvem isto? Ouvem as vozes da multidão?

Elas não dizem. Exclamam!

"Acaba com isso; atrasado!"

domingo, 21 de maio de 2023

Terça-Feira

Eram 18H00 quando troquei o ar-condicionado do escritório pelo do Metro. Agosto. A cidade está vazia mas o ar está abafado. A caminho de casa ainda parei na mercearia do bairro para comprar figos. Trouxe também limões. Estavam a bom preço e faço bom uso deles. À saída cruzei-me com uma vizinha que passeava o cão. Cumprimento cordial e festa no cachorro. "Está bom tempo mas a chuva ainda há-de voltar... um dia destes". Chegado a casa fui ver o correio. Conta da luz, folheto do Lidl e cartão de um agente imobiliário. Chave na porta, entrei. Descalcei os sapatos, tirei o cinto das calças e fui arrumar as compras. Depois prostrei-me no sofá. Semi-cerro os olhos e suspiro-bocejo. A fugacidade do momento é cruel. Hora de preparar o jantar. Abro o frigorífico: umas cenouras na gaveta de baixo, meia embalagem de cogumelos, umas fatias de queijo, um pack incompleto de cerveja, uma miríade de frascos com molhos expirados e alguns tupperwares com restos de alma. Retiro um para fora do frigorifico e abro-o: Frango. Faço arroz para acompanhar. Entre refogados ligo o rádio. Ouvir música relaxa. Desligo-o logo a seguir quando me recordo que arroz não acompanha bem com os Blues. Arroz pede umas pitadas de sal e silêncio. Termino de preparar o arroz e aqueço o frango. Ponho a mesa e sirvo o prato. Como. Engulo auxiliado por uns tragos de cerveja. Está fresca e alivia as dores. Finalizo com figos. Regressado ao sofá, vejo as notícias na TV: Greve, Guerra e Golos. Sabe-me a frango. Esta guerra é requentada. Ao menos a greve e os golos são do dia. Depois levanto-me do sofá e vou até ao quarto. Sento-me à secretária e abro uma gaveta. Retiro do seu interior o revólver. Está limpo e brilha sob o reflexo da luz do candeeiro. Torno à gaveta para recolher a caixa das balas. Agarro numa e coloco-a no tambor. Giro-o. Encaixo o tambor na arma. Aponto à parede. Volto a abrir o tambor e observo a bala no seu interior. Volto a girar. Volto a encaixar o tambor no revólver. Inspiro. Dedo no gatilho. Expiro. Abro o tambor. Retiro a bala e devolvo-a à caixa. O revólver reluzente torna também à sua gaveta. Vou lavar os dentes. A pasta dentífrica está a acabar. Amanhã tenho de passar no Lidl.

sábado, 3 de setembro de 2022

A Esplanada

Quando te vi,

Sentada na esplanada.

Copo de gin,

Cadeira abandonada.

Quis te falar.

Contar-te o que sou.

Ouvir as tuas histórias,

Saber quem te deixou.


Depois sentei e senti,

O teu sorriso só p'ra mim.

Mas afinal...


Eras só mais uma tarde,

Sentada na esplanada.

Gin e limonada.

E no final de Tudo;


Nada.

sábado, 28 de novembro de 2020

Silogismos

Se soubesse fazer, fazia.
Se soubesse cantar, cantava.
Se soubesse ler, lia.
Se soubesse jogar, ganhava.

Se soubesse falar, calava.
Se soubesse escrever, via.
Se soubesse correr, chegava.
Se lembrar, esquecia.

Se tiver, vazia;
Se sentir, sentava;
Se sabor, sabia; 
Senão apagava.

Se estou, Me fico.
Se parto, Se sou.

domingo, 18 de março de 2018

Inverno

O Inverno chegou sem me aperceber.

O tempo foi esfriando devagar. O sol deixou de brilhar com tanta intensidade e soprava apenas uma ligeira brisa. Entretinha-me a ver os bandos de folhas a esvoaçar.

Quando começou a chover disseram que era bom: "Ainda bem. É normal nesta época do ano. É bom para as couvinhas medrarem!"
A ribeira corria forte nessa altura. Os miúdos da aldeia desafiavam-se entre eles a meter o pé na água. Os mais velhos assustavam os mais novos com o mito do Zé Galego que tinha sido levado pela corrente há muitos anos atrás e que agora amaldiçoava a ribeira como fantasma debaixo de água, à espera para se vingar agarrando outro miúdo incauto pelos tornozelos e arrastando-o ribeira abaixo para a morte. Fantasias de infância. Mas também elas me entretinham, na altura.

Algumas semanas depois começou a tempestade. O granizo fustigava as telhas, enquanto as janelas eram açoitadas pelo vento que bufava com desdém de quem tivesse a ousadia de se atravessar no seu caminho. Nos céus trovejava fúria. Cada relampago que caía parecia que se aproximava. A ínicio eram distantes e espaçados. Mas, com o tempo iam-se aproximando e ficando mais perto de casa. Cada vez mais próximos e mais altos também! Ainda mais violentos, mais próximos, mais altos! Altos, Próximos, Violentos! Já estavam mesmo ao lado de casa, de certeza, eu sentia!!! Nessa noite tive medo. Nessa noite senti-me vivo.

Depois veio a neve. As culturas morreram e a ribeira gelou. Tudo branco, estéril e morto. Saía-se à rua e não se ouvia nada. A horta que antes se enchia de vida diante dos meus olhos curiosos, era agora um deserto incolor. Aquela camada de cimento branco, calcava tiranicamente toda a vida debaixo dela.

Entretanto chegou a primavera e depois o verão. Parou de nevar e de chover, a horta floriu com nova vida e a ribeira voltou a encher-se de crianças.

Aquele inverno passou mas ainda estou gelado.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Esperando

Fim.

Cheguei.

Já não tenho nada para dizer, nada para contar. O fim é fim. O que vim cá fazer terminou. Findou o seu propósito. Já não há mais de eu em mim. A loja fechou, produto esgotado e descontinuado. Agora só a carapaça vazia, desprovida de alma. Tal como no início: coisa. Carne seca e nua. Pó do pó ao pó. Que bom é esperar pela maré cheia me levar na espuma. A verdade é que nunca respirei tão bem.

Estou aqui.

Vem-me buscar.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Ela

Gostava conhecer o cheiro do teu cabelo.
Suas cores, seus humores.
Gostava saber o sabor da tua pele.
Seus altos, seus percalços.
Gostava te abraçar em mim, aqui, assim
Frente a frente, rente a rente.

Quando sentires,
Quando souberes,
Estarei aqui na beira da estrada,
À beira do nada 
E pronto atravessar.